21 Agosto 2020 Na Mídia

Na maior fazenda do país, gado mais soja vira menos carbono — e crédito mais barato

Em Roncador, o menor impacto ambiental gera retornos superiores e atrai financiamento de &Green e Bradesco

Uma das maiores fazendas do Brasil, com uma área equivalente à da cidade de São Paulo, está trabalhando para aumentar em quase 60% sua produção de soja e gado até 2026, sem desmatar nenhum hectare a mais de terra, sequestrando carbono da atmosfera  — e com financiamento a taxas abaixo das de mercado. 

Num momento de níveis alarmantes de desmatamento, a Fazenda Roncador, no município de Querência (MT), entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, é um exemplo de que o manejo sustentável, quando bem feito, é tão positivo para o planeta quanto para o balanço financeiro. 

A megafazenda de 152 mil hectares foi a primeira no Brasil a receber um financiamento do &Green, um fundo de capital majoritariamente holandês voltado para proteção de florestas tropicais, que usa o mecanismo de blended finance: dá financiamento a taxas abaixo do mercado e ajuda a alavancar recursos de outras instituições. 

A &Green financiou um empréstimo de US$ 10 milhões (cerca de R$ 50 milhões) a taxas anuais de 2,95% e prazo de oito anos, mais longos que os tradicionalmente praticados no Brasil. E o Bradesco, que tem a família proprietária da fazenda como cliente do private bank, entrou com uma linha de R$ 150 milhões de seis anos. 

“Como fazenda de manejo sustentável, eles adotam práticas que funcionam como mitigadores de risco, sem abrir mão de performance. Os resultados de produtividade são maiores, com retornos financeiros acima dos pares”, diz Renato Ejnisman, diretor executivo do Bradesco. 

Com o dinheiro levantado junto a Bradesco e &Green, a Roncador vai restaurar pastagens e cobrir todos os 60 mil hectares produtivos com integração lavoura-pecuária, dando escala a algo que até agora era mais experimental.

“É um programa ambicioso de intensificação sustentável que pode servir de modelo para outros produtores e mostra como o resultado financeiro pode ser atrelado à proteção da floresta”, diz Gustavo Oubinha, diretor da Sail Ventures, gestora responsável pelo &Green. 

Fundada em 1978, a Roncador sempre atuou com a pecuária extensiva. Mas a terra não aguentou: em meados dos anos 2000, a propriedade entrou numa espiral descendente, com esgotamento da terra e da lucratividade.  

Para tentar melhorar a fertilidade de algumas áreas e diversificar a produção, em 2008, começou a cultivar soja. E a soma de soja com boi fez disparar a produtividade. 

“Começamos a entender a agricultura como o equilíbrio do todo”, diz Pelerson Penido Dalla Vecchia, diretor executivo do Grupo Roncador e xará de seu avô, o fundador da Roncador, Pelerson Soares Penido. 

Os números falam por si só: o balanço foi de 41 vezes mais alimentos produzidos na mesma área. Além de adicionar a produção de soja, a produção de carne aumentou em cerca de 30%, para 5,2 mil toneladas em 2019.

O resultado também disparou. De 2013 — primeiro ano com números comparáveis — a 2018, a geração de caixa cresceu 3,6 vezes. “Há 10 anos atrás, o resultado era muito fraco, para não dizer que era negativo”, diz Dalla Vecchia. 

O mais impressionante é que mesmo com o aumento da produção, com a recuperação das pastagens, Roncador deixou de ser um emissor de gases de efeito-estufa para se tornar uma operação que sequestra carbono. 

Na safra 2017/2018, 82,5 mil toneladas de CO2 foram emitidas e 172,3 mil toneladas de carbono foram capturadas. 

Ou seja, no balanço — já considerando o metano emitido pelo gado, uso de combustível e fertilizantes nitrogenados —, o solo bem tratado capturou 89,8 mil toneladas de carbono equivalente. 

Hoje, dos 152 mil hectares da fazenda, metade é de floresta nativa ou de áreas protegidas. Dos 76 mil restantes, 30 mil são voltados para a pecuária e 26 mil para a integração entre soja e boi. Os cerca de 20 mil hectares restantes estão em uma joint venture em que a produção fica a cargo da SLC Agrícola, e já começa a testar o modelo de lavoura-pecuária.

Quando um mais um dá mais que dois

No sistema integrado soja-boi, são quatro meses de agricultura, rotacionados com outros cinco meses de pecuária. 

Funciona assim: em outubro no período das cheias, é plantada a soja, que irá germinar e crescer até fevereiro, quando ocorre a colheita. Um pouco antes da colheita, é iniciado o processo de distribuição de sementes de capim para que, em abril, a área receba o gado. Os animais “colhem” esse capim de qualidade de abril e setembro, período tipicamente mais seco. 

A união traz um círculo virtuoso. A soja fixa nitrogênio no solo e o capim produz raízes fortes, que chegam a três metros de profundidade, e, graças ao nitrogênio, o capim cresce mais nutritivo. O pastejo dos bois também contribui para o processo: o gado força o capim a aprofundar mais as raízes, trazendo mais nutrientes para o sistema, além de trazer mais ‘microvida’ para o solo através da urina e do esterco. 

As raízes do capim descompactam o solo, aumentando a permeabilidade do material orgânico (CO2). A palha que sobra — pelo menos 2,5 toneladas de matéria seca — garante a cobertura do terreno para o plantio direto de soja, além de permitir a maior umidade do solo e o maior conforto térmico para a próxima cultura do grão. 

“O finalzinho da seca era o momento mais difícil da fazenda e hoje é o momento mais tranquilo”, diz Dalla Vecchia. “Quando você chega de avião é bonito de ver, porque está tudo seco e se vê um oásis de longe: é a fazenda.” 

A fazenda adota ainda práticas que buscam reduzir o uso de defensivos agrícolas e quer expandir o uso de defensivos biológicos para todo o sistema de grãos em poucos anos.

O aumento da produtividade veio associado a uma modernização da tecnologia na fazenda e principalmente por uma obsessão em mensurar resultados dos sistemas produtivos. 

O aumento da produtividade veio com uma modernização da tecnologia na fazenda e principalmente por uma obsessão em testar e mensurar resultados dos sistemas produtivos. 

“A gente buscou gestão, gestão, gestão, e medir, medir, medir para ter mais resultado econômico. A sustentabilidade não anda separada do resultado econômico, anda junto. E ela é resultado. A sustentabilidade é resultado de uma boa gestão e a fixação de carbono também”, diz Dalla Vechia.  “É um processo de melhoria contínua”.

Compromissos 

O acordo com a &Green tem uma série de compromissos ambientais, inclusive o de desmatamento zero. A Roncador não derruba floresta nativa há mais de dez anos, mas ainda compra uma parte do gado de outras fazendas, o que torna mais difícil rastrear a procedência. 

“Hoje a gente faz o ciclo completo do boi, com cria, recria e engorda. A gente compra animais para ampliação das matrizes, mas tem procedimento de verificação de fornecedores”, diz Dalla Vechia. 

“Mas assim como decidimos plantar o milho [para ração] em vez de comprar, estamos internalizando a reposição das matrizes, tanto para melhorar o desempenho, quanto para não ficar à mercê do mercado.” 

Hoje, a Roncador produz 90% dos alimentos que são fornecidos aos animais. A ideia é verticalizar cada vez mais a cadeia para garantir a sustentabilidade completa dos produtos. 

Grandes tradings, como a Cargill, começam paulatinamente a pagar mais pela soja certificada, por meio de premiações. No mercado de carne, esse prêmio pela garantia de origem e o sequestro de carbono ainda engatinha. 

O compromisso com a &Green inclui ainda a disseminação de conhecimento sobre as técnicas utilizadas na fazenda.  De forma mais prática, o acordo com a &Green prevê que a Roncador dê suporte técnico para a SLC testar e pilotar o sistema na Pioneira, a JV com o grupo dos Penido. 

Segundo um estudo de 2016, uma das principais barreiras para a baixa adoção de integração lavoura-pecuária no Mato Grosso é a falta de conhecimento técnico. 

“Isso é especialmente relevante porque gera alguma aversão ao risco em produtores, que muitas vezes não querem investir em algo novo que só vai gerar resultados mais à frente”, diz Oubinha, que assessora a &Green. 

Com US$ 150 milhões levantados para investir em áreas tropicais, tendo o Brasil como um dos focos, a &Green diz que está em conversas com uma série de projetos para apoiar no Brasil. 

Tipicamente, o fundo — que já financia também projetos de borracha na Indonésia — assina cheques entre US$ 10 milhões e US$ 30 milhões, entrando sempre em conjunto com outro financiador.

(Crédito da foto: Marcos Lopes/Roncador)